Protocolo Modbus em Sistemas Supervisórios: como funciona no SAGE e no Elipse

Sobre o autor
RM

Rayger Marins

Engenheiro de Controle e Automação

Experiência em sistemas supervisórios com atuação em projetos de subestações, com foco em SAGE, Elipse e integração de dispositivos de campo.

O protocolo Modbus consolidou-se como um padrão de comunicação amplamente adotado na automação industrial e em sistemas de energia, sendo utilizado para a integração de Controladores Lógicos Programáveis (CLPs), Unidades Terminais Remotas (UTRs) e IEDs. Sua aplicação em sistemas de supervisão e controle (SCADA) exige o conhecimento de nuances de endereçamento e formatação de dados para garantir a integridade da comunicação entre centros de controle e equipamentos de campo.

A Estrutura Hierárquica no SAGE (CEPEL)

No sistema SAGE, a comunicação via Modbus é organizada de forma hierárquica para facilitar o processamento de dados. Essa organização é dividida principalmente em:

1. Classes de Dados (NV1): Define a finalidade da comunicação, como a aquisição de dados (AMDB), o controle supervisório (CMDB) ou a gestão da comunicação (GMDB).

2. Tipos de Objetos (NV2): Classifica os pontos conforme o mapeamento de memória da UTR, incluindo Coil-Status (0x), Input-Status (1x), Input-Registers (3x) e Holding-Registers (4x).

Um aspecto técnico relevante do SAGE é o tratamento da Sequência de Eventos (SOE). Como o protocolo Modbus original não define um padrão para eventos datados em milissegundos, o SAGE utiliza um esquema de buffer circular localizado na área de holding registers. O controle é realizado pelos ponteiros aptesc (índice de escrita da UTR) e aptlei (índice de leitura do SAGE), permitindo que eventos acumulados sejam recuperados cronologicamente após falhas de comunicação.

Flexibilidade de Configuração na Elipse Software

A Elipse Software provê suporte ao protocolo Modbus nos modos RTU, ASCII e TCP. Um recurso de destaque é o driver projetado para operar no modo Slave (Escravo), no qual a aplicação Elipse responde às solicitações de um dispositivo mestre externo.

Tecnicamente, essa implementação oferece flexibilidade no tratamento de diferentes tipagens de dados que superam o limite básico de registros de 16 bits:

• Manipulação de Ponto Flutuante: Suporte a formatos Float e Reverse Float, este último utilizado para tratar a inversão na ordem dos bytes (endianness) comum em determinados hardwares.

• Dados Textuais: Capacidade de transmitir Strings de até 250 caracteres, ocupando dois caracteres por registro Modbus.

• Ajuste de Endereçamento: O driver permite configurar se o armazenamento seguirá a Base 0 (nível de hardware, iniciando em 0x0000) ou a Base 1 (nível de usuário, iniciando em 0x0001), facilitando a equivalência com o endereçamento do Mestre.

Particularidades Técnicas e Curiosidades

O desenvolvimento e a manutenção de drivers Modbus revelam detalhes importantes para a engenharia de sistemas:

• Diagnóstico de Comunicação: A função de código 8 (Leitura de Diagnóstico) é frequentemente implementada apenas para conformidade, realizando um "eco" da mensagem enviada para validar o link sem processar contadores internos.

• Transporte de Dados: No SAGE, a conectividade é viabilizada por transportadores específicos como o YMBUS para linhas seriais e o TMBUS para conexões Open Modbus-TCP, que utiliza a porta padrão 502.

• Filtros Lógicos: Para otimizar a aquisição, o SAGE permite o uso de filtros (como FIL1 a FIL8) para converter estados de chaves de dois contatos ou compor medidas de 32 bits a partir de múltiplos registros de 16 bits.

Conclusão

A estabilidade do protocolo Modbus em sistemas críticos como o SAGE e o Elipse demonstra que a padronização e a simplicidade técnica são fundamentais para a interoperabilidade industrial. Enquanto o SAGE estende as capacidades do protocolo para atender às exigências de temporização do setor elétrico, a Elipse oferece ferramentas versáteis para a integração de sistemas heterogêneos. O domínio sobre o mapeamento de memória e as camadas de transporte continua sendo um requisito técnico essencial para profissionais de automação.

Fontes e Referências:

• Elipse Software. Driver Modicon Modbus Slave (MODBUSSLAVE.DLL). Manual de configuração e histórico de revisões (v3.1.1). Porto Alegre, RS.

• CEPEL (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica). SAGE - Sistema Aberto de Gerenciamento de Energia: Anexo de Configuração - MODBUS. Outubro de 2023. Rio de Janeiro, RJ.

• Modbus Organization. Modbus Application Protocol Specification. Disponível em: http://www.modbus.org/specs.php.

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Engenheiro eletricista e coordenador de SPCS, com experiência em projetos de alta tensão envolvendo proteção, controle e automação de subestações. Atua em comissionamento, definição de filosofias de proteção, análise de sistemas e integração de soluções, com participação em projetos HVAC e HVDC no Brasil e no exterior.

Coordenador de SPCS - CET Brazil

Engenheiro eletricista especialista em sistemas de proteção, controle e supervisão, com experiência em projetos de alta complexidade, incluindo HVAC e HVDC. Atua em comissionamento, estudos de proteção, análise de oscilografias e revisão técnica de projetos, com interface direta com clientes, fornecedores e ONS.

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